O mal da vaca louca e a Bolsa

No final de agosto, o mercado foi surpreendido por rumores de casos suspeitos de Encefalopatia Espongiforme Bovina, mais conhecida como a doença da vaca louca, em animais nos estados de Minas Gerais e Mato Grosso.

As ações dos principais frigoríficos brasileiros sofreram leves quedas em meio aos rumores na última semana de agosto e/ou primeira semana de setembro.

No final de semana, mais precisamente no sábado, dia 4 de setembro, o Ministério da Agricultura confirmou a ocorrência de dois casos atípicos da doença, em animais que não chegaram a ser comercializados.

A notificação, no entanto, acionou gatilhos automáticos de proteção das importações pela China, que suspendeu, imediatamente, as importações de carnes brasileiras.

Outros países também interromperam importações, como a Arábia Saudita, que suspendeu a importação proveniente de 5 frigoríficos brasileiros.

É evidente que este cenário impacta diretamente nas operações dos grandes frigoríferos brasileiros listados em bolsa, entretanto qual o verdadeiro risco que essa doença impõe às empresas de capital aberto do setor?

O que é a doença da vaca louca e como ela impacta na exportação?

A Encefalopatia Espongiforme Bovina é uma doença neurodegenerativa que afeta os bovinos, sendo incurável e invariavelmente fatal para os animais. A doença é transmissível aos seres humanos, causando o mal conhecido como Creutzfeldt-Jakob.

A vaca louca pode aparecer de forma espontânea em animais, normalmente de idade avançada. Nesse caso, a frequência é rara e a doença é considerada atípica, de risco baixo de contaminação.

No entanto, caso um animal com a doença seja utilizado para a produção de alimentos para animais ou humanos, a doença pode ser transmitida de forma infecciosa, o que constitui o chamado caso típico. Na história do Brasil, não há registro de nenhuma ocorrência de caso típico.

A última vez em que se constatou a doença em solo brasileiro foi em 2019, caso também atípico, em que houve suspensão de importação de carne brasileira pela China, com duração total de 13 dias até a retomada das importações.

Quando é identificado um caso atípico da doença, o animal é sacrificado e amostras são avaliadas e enviadas ao exterior para a realização de contraprova por laboratório estrangeiro, a fim de confirmar o teor atípico do caso.

Com as evidências científicas em mãos, o governo brasileiro submete os documentos solicitados para a Organização Mundial de Saúde Animal, que os analisa e referenda seu teor atípico. Atualmente, o governo brasileiro já terminou todos esses passos, inclusive a obtenção do aval da Organização Mundial de Saúde Animal.

Em decorrência da finalização deste procedimento, a Arábia Saudita já retomou a importação de carne brasileira. O setor produtivo espera que a China termine a análise da documentação, que foi, inclusive, submetida ao governo chinês em mandarim pelo governo brasileiro, para que as exportações para o país sejam retomadas.

Dessa forma, o impacto nos frigoríficos brasileiros listados em bolsa não deve ser significativo.

Das ações listadas na B3, a Minerva (BEEF3) é aquela que, em tese, seria mais afetada pela suspensão das exportações à China, uma vez que a JBS  (JBSS3) e a Marfrig (MRFG3) têm mais de 70% de sua receita proveniente de operações no exterior, sobretudo dos EUA, que continua a exportar carne para a China sem grandes problemas. Mesmo a Minerva (BEEF3) continua a atender a demanda chinesa por meio de sua subsidiária Athena Foods, responsável pelas operações em outros países da América do Sul.

Além disso, os números recentemente publicados pelo Secex indicam que as exportações brasileiras de carne bovina no mês de setembro foram muito bem, mesmo com o embargo chinês. O último relatório do Secex, que contabiliza as exportações até a 3ª semana de setembro, indica que o Brasil exportou 130.520 toneladas de carne bovina fresca, refrigerada ou congelada.

A média diária de exportação de carne bovina no período foi de 10.876 toneladas, o que representa alta de 60,4% no volume de exportações em relação ao ano passado.

Além disso, ao suspender as importações brasileiras, a China permitiu que as carnes que já haviam chegado aos portos e que tinham sido preparadas para o envio fossem enviadas normalmente, o que significa que mesmo alguns dias após o início do embargo, o país asiático seguiu recebendo carne brasileira.

Considerando a confirmação de casos atípicos, sem risco de contágio, a expectativa de liberação das importações de carne brasileira pela China, a possibilidade de atendimento da demanda chinesa pelos frigoríficos listados na B3, por meio de suas operações em outros países, e o forte desempenho das exportações de carne bovina no mês conforme os dados divulgados pelo Secex, não há motivos para alarde no setor de frigoríficos.

Pelo contrário, o setor deve continuar a se beneficiar da demanda chinesa pela carne bovina, da desvalorização do real e da força de mercados externos, como os EUA, o que deverá levar as empresas brasileiras do setor a apresentarem bons resultados relativos ao 3º trimestre de 2021, apesar do período de restrições de exportações para a China.

Para concluir, mesmo que o cenário do setor de produção de carne bovina não tenha sido tão gravemente impactado pelo problema causado pela Encefalopatia Espongiforme Bovina, o investidor deve estar alerta.

No passado, notícias negativas sobre corrupção e problemas sanitários foram usados como desculpa por países que tinham interesses comerciais em dificultar a importação de carnes brasileiras, sendo assim, o monitoramento de riscos relacionados ao portfólio deve ser acompanhado de forma constante.

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