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Fundos quantitativos: redução de risco e aumento de resultado

Diferentemente dos fundos tradicionais, os fundos quantitativos seguem modelos estatísticos previamente testados. Dessa forma, tendem a apresentar oscilações descorrelacionadas aos fundos multimercados mais comuns. O objetivo desses investimentos é lucrar em operações cuja origem esteja na análise de dados, procurando comportamentos repetitivos nos preços dos ativos.

Para conhecer mais sobre esse universo ainda novo no Brasil, o blog conversou com os gestores da Giant Steps Capital, Pedro Simonetti e Flávio Terni. Veja a seguir:

Qual é a história da Giant Steps Capital, conte um pouco sobre a trajetória, equipe de gestão e o processo de investimento de vocês.

A Giant Steps nasceu há oito anos seguindo o objetivo de gerir capital utilizando o que há de mais moderno em estatística e tecnologia no mercado financeiro. A empresa está constituída em um modelo de partnership e conta com uma equipe de 18 profissionais com formação acadêmica de ponta e larga experiência no mercado.

Na nossa visão, o mundo mudou. Hoje, qualquer cenário econômico pode mudar na velocidade de um tweet, e a quantidade de informação disponível cresce de forma exponencial. Em meio a tantas variáveis, focamos nossas estratégias em uma única constante: o ser humano. No final, toda e qualquer variação no mercado é fruto das reações dos investidores.

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Por natureza, é impossível prever o que uma pessoa fará em determinada situação, mas o comportamento agregado de um grupo de seres humanos é completamente previsível. Gestores vem tentando medir esse comportamento para ganhar dinheiro no mercado há centenas de anos. A grande mudança atual é a velocidade e a quantidade de informações.

O que nós fazemos é exatamente o mesmo que vem sendo feito há séculos: modelar o comportamento humano para ganhar dinheiro no mercado. Nossa diferença é a adição do uso de poder computacional e estatística à intuição humana, para conseguir processar essa quantidade absurda de informação.

No final, somos pioneiros de uma revolução que já não é novidade nos mercados internacionais, onde os fundos quantitativos já dominam o mercado de forma bastante consolidada. Acreditamos que, no Brasil, esse crescimento dos métodos quantitativos na gestão de recurso também acontecerá. E não vai demorar.

Quais são as vantagens de ter fundo quantitativo na carteira?

Uma das vantagens de se ter um fundo quantitativo na carteira, e que ocorre imediatamente ao investir, é a descorrelação com o resto do mercado. Por consumir usualmente mais informação do que outras modalidades de gestão, os fundos quantitativos costumam possuir gatilhos de entrada e saída de posições muito diferentes dos outros fundos. É por isso que não se costuma encontrar nenhuma relação consistente do resultado do fundo com nenhum benchmark ou outro fundo.

Em palavras mais simples, fundos quantitativos são uma ferramenta poderosa para diversificação. Sendo assim, o efeito na carteira do investidor, ao aplicar num fundo como o Zarathustra, por exemplo, é de redução de risco e aumento de resultado. Essa é a “mágica” da descorrelação.

Outra vantagem crucial dos quantitativos, está mais no médio-longo prazo, é que o resultado dos fundos tende a melhorar com o tempo — ao contrário das outras modalidades, cuja performance tende a piorar ano a ano. O aumento e globalização da competição, somados crescimento da informação disponível, requer que as gestoras consigam consistentemente se reinventar – processo normal em um fundo quantitativo.

Uma terceira vantagem deriva da enorme capacidade de processamento de dados e da exclusão dos vieses emocionais dos gestores na tomada de decisão. No mercado, o investidor que tem o maior acesso a informação terá maior vantagem competitiva. Em um mundo que produz 2.5 bilhões de gigabytes de informação por dia, a única forma possível de se tomar decisões de investimento, realmente embasadas em dados é com o uso intensivo de tecnologia.

Há duas principais estratégias na casa, o Zarathustra e o Sigma. Em que elas se diferenciam?

Exatamente. São duas estratégias, uma composta pelos fundos Zarathustra e Darius, e outra pelos fundos Sigma e Axis. O racional por trás da estratégia do Zarathustra e Darius:

O ser humano nem sempre é racional. Em alguns momentos, a emoção toma conta (seja pânico ou euforia). Nesses momentos, o mercado abre oportunidades pontuais e rápidas para ganhar muito dinheiro, correndo risco. A estratégia do Zarathustra (e do Darius) foi desenhada para explorar esses momentos, entregando um resultado completamente descorrelacionado do resto da indústria para o investidor.

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Em termos mais técnicos, essa estratégia é formada por 18 modelos que rodam em paralelo explorando ineficiências no mercado. Cada modelo explora um tipo de ineficiência em um ativo diferente. Atualmente operamos bolsa, juros, câmbio e commodities no mundo inteiro.

A diferença entre o Zarathustra e o Darius é o nível de risco (Zara = 15%, Darius = 8%)

Racional por trás da estratégia do Sigma e Axis:

Quando não está dominado pelas emoções, o ser humano (no agregado) tende a ser racional. Essa A estratégia foi desenhada para mitigar os efeitos das reações emocionais dos investidores e lucrar nos momentos de racionalidade.

Em termos mais técnicos, utilizamos a metodologia de paridade de risco para construir um portfólio global altamente diversificado que entregue resultado em qualquer tipo de cenário. A ideia é explorar o prêmio de risco em bolsa, juros câmbio e commodities ao redor do globo, montando uma alocação dinâmica inversamente proporcional ao risco dos ativos e à correlação do ativo com o resto da carteira.

A diferença entre o Sigma e o Axis é o nível de risco (Sigma = 8%, Axis =4%).

Faz sentido ter os fundos Zarathustra e Sigma em uma mesma carteira?

Faz total sentido. Inclusive, é como alocamos o patrimônio de nossos sócios e é o que recomendamos aos nossos cotistas.  Nós criamos as estratégias para que formassem, além de bons fundos individualmente, uma carteira poderosa quando combinadas. Na verdade, as estratégias foram desenhadas desde o início para serem complementares.

Quando investidas em conjunto, o cotista terá acesso a um portfólio com resultado consistente e projetado para entregar resultado independentemente de cenário econômico.

Falando em termos mais técnicos, a descorrelação entre os fundos faz com que a volatilidade da carteira resultante da combinação de estratégias seja bastante reduzida, com o mesmo retorno. Historicamente, o índice de Sharpe de um portfólio 50/50 gira em torno de 1,4.

 Qual o target de rentabilidade e volatilidade dos fundos?

O Zarathustra tem como target e a volatilidade de 15% a.a, buscando um resultado de CDI+10%. Seu espelho mais conservador, Darius, possui volatilidade de 8% e busca entregar CDI+5%.

A família de fundos Sigma e Axis busca atingir um índice de Sharpe de 1, o que facilita a conta para o investidor: Sigma possui vol de 8% e busca retorno de CDI+8% e o Axis vol. de 4%, e buscando CDI+4%.

 Os fundos quantitativos ainda representam uma parcela muito pequena dos fundos de investimento no Brasil, mas, por outro lado, os maiores hedges funds do mundo são quantitativos ou híbridos. À que se atribui essa grande diferença nos dois mercados? Na opinião de vocês, há uma tendência de crescimento no Brasil?

Nos Estados Unidos, os fundos com estratégia quantitativa já representam 30% do AUM alocado em Hedge Funds, sendo que os 10 maiores são todos (em maior ou menor grau) quantitativos. No Brasil, menos de 1% do AUM em fundos está nesse tipo de estratégia.

A explicação para isso é o fato de que o mercado americano é muito mais maduro do que o mercado no Brasil, com mais competição e investidores mais sofisticados – embora não exista mais limites geográficos para as gestoras e a competição já seja global.

No Brasil, a hegemonia dos grandes bancos e principalmente a taxa de juros alta retardou por muito tempo, o processo de maior sofisticação dos investidores (e interesse por educação financeira).

Essa realidade gerou duas características importantes no mercado: do lado dos gestores, poucos competidores realmente qualificados, gerando um mercado onde não era necessário o uso de técnicas complexas para encontrar valor. Estratégias simples já eram suficientes para ganhar dinheiro em um mercado com ineficiências gigantescas.

Do lado dos investidores, o rendimento da poupança e outras aplicações bancárias era suficiente para contentar a maior parte das pessoas, que nunca buscaram conhecer mais sobre outros tipos de aplicação mais arriscadas.

Esse cenário está mudando de forma rápida. Hoje já vemos um fluxo enorme de capital saindo de aplicações pós-fixadas para estratégias mais agressivas, principalmente pela queda brusca na taxa de juros. Esse movimento é acompanhado pelo aumento significativo de competição no mercado, o que diminui as ineficiências que os gestores poderiam explorar. Nesse cenário, os fundos quantitativos ganham maior relevância, uma vez que conseguem processar quantidades enormes de dados, encontrando ineficiências impossíveis de serem encontradas sem o apoio da tecnologia.

Essa é uma evolução natural do mercado: quanto maior a competição, maior o investimento em tecnologia que o gestor precisa fazer para se manter competitivo. Essa transformação já mostra sinais claros de que está a todo vapor, e nós buscamos nos colocar na vanguarda dessa nova revolução dos investimentos no Brasil.

Recentemente vocês foram escolhidos para fornecer pesquisa quantitativa para uma gestora americana, o que isso representa para vocês?

Outro processo irrefreável. Para explicar esse ponto, é importante que se entenda como estamos estruturados. Na Giant Steps, nosso processo foi desenhado em forma de linha de produção, dividido em 4 etapas: aquisição e tratamento de base de dados, criação de hipótese, teste e implementação. Funcionamos exatamente como uma fábrica, na qual entram dados (matéria-prima) e saem modelos, que serão alocados em uma das nossas famílias de fundos.

Entender a nossa parceria com a gestora Aperture é simples: nós alugamos a ociosidade da nossa fábrica, sem entregar a nossa receita.

Como já mencionamos, o mundo está mudando rápido. A pergunta em alguns anos não será mais se determinada gestora é quantitativa ou não é, mas sim o quão quantitativo/sistemático é o processo de investimento. Com o crescimento da quantidade de informações e o aumento da velocidade de reação dos mercados, será impossível se manter competitivo sem o uso de tecnologia para, no mínimo, apoiar a tomada de decisão dos gestores.

Lá fora, todas as gestoras já perceberam isso, mas criar uma infraestrutura de processamento de dados e teste de hipótese não é tarefa simples. Por isso nos contrataram. E isso não será um fato isolado, é algo que provavelmente acontecerá bastante daqui para frente, e não apenas partindo de gestoras internacionais. Por enquanto só podemos dizer isso — não vamos dar spoilers do que está por vir.

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