• Pesquisar
Oil Rig & Offshore production platform

Entenda como o petróleo mundial afeta diretamente a inflação brasileira

Desde que entrou em cena, o tema petróleo nunca mais saiu de moda. Com o acirramento da crise de demanda causada pelo coronavírus e a nítida dificuldade de a Opep se manter internamente una, a commodity voltou aos “trend topics”.

Ontem, quando o preço futuro do principal combustível global ficou negativo, a história do petróleo entrou em um capítulo especialmente particular.

Mas e o Brasil nessa história?

Vários são os desdobramentos para o país e, principalmente para a Petrobras, mas hoje, aqui no Palavra do Especialista da Ativa Investimentos, explicarei os impactos diretos correntes e futuros do preço do petróleo global na inflação.

Como tratarei apenas dos impactos diretos no IPCA, deixarei para uma próxima oportunidade o tema diesel, uma vez que o peso no índice é de apenas 0,20% (referência fev/20), apesar da grande relevância na cadeia de transportes brasileiros.

Desde que a Petrobras passou a adotar a paridade entre os preços internacionais e domésticos da gasolina e do diesel, o risco causado pela discricionariedade na política de preços se reduziu muito.

Para projetar a gasolina, primeiramente é necessário distinguir a projeção entre curtíssimo prazo (mês corrente e seguinte) e curto prazo (próximos 10 meses).

No curtíssimo prazo, utilizo simplesmente a paridade do preço do combustível divulgado pela ANP ao produtor/importador descontado os impostos frente ao preço da gasolina do golfo trazida a reais pelo câmbio spot, comumente chamado de defasagem da gasolina.

Como podemos observar no gráfico abaixo, os reajustes da Petrobras caminhavam bem em linha com o cálculo da defasagem deste ano, até que ocorreu o colapso no mercado de combustíveis, quando a companhia afirmou que adotaria uma postura mais cautelosa nas alterações, algo que parece ter se ajustado.

A linha amarela é a defasagem conforme a metodologia descrita acima, enquanto a linha azul é uma média móvel de 30 dias da mesma. Como se pode observar, ainda existe uma diferença de -24% na ponta (atualizado em 22/04 – 10:30), sugerindo que o preço da gasolina no mercado doméstico teria um potencial de reajuste negativo de mesma magnitude.

Contudo, devemos destacar que o cálculo vai além da paridade numérica, envolvendo também posicionamento estratégico da companhia. Em outras palavras, a zeragem da defasagem pode não ser o objetivo momentâneo da empresa.

Por enquanto não contemplamos reajustes adicionais no curto prazo. Por isso, com a defasagem negativa, não atribuo nenhum viés ao preço doméstico da gasolina. Deste modo, no tocante à inflação, todos os reajustes observados até agora do preço combustível já estão no preço. Assim, projeto que esse subitem deverá cair -7,5% no IPCA de abril e -6,5% na divulgação de maio.

Para o curto prazo (meses que se seguem até o final do ano e início do próximo), me valho da paridade de preços, regredindo o wti spot contra o preço da gasolina no golfo, projetado através do mercado futuro, e convertido para reais usando a projeção da macroeconomia da Ativa Investimentos para o câmbio.

Como podemos observar no gráfico abaixo até o inicio do ano, a relação entre o preço da gasolina golfo e o wti spot era relativamente estável, sofrendo uma leve queda desde o início de março e colapsando desde dia 20 de abril.

Por isso, para projetar o IPCA nos meses que se seguem partirei da hipótese de que esse mercado se normalizará, deixando as distorções recentes para trás.

Assim, conforme gráfico abaixo, passado o mês de maio, período no qual ainda nos valemos do cenário de curtíssimo prazo, o mercado precifica forte alta do preço do petróleo, o que deve se refletir no mercado de gasolina e consequentemente no IPCA, sobrepujando o cenário de apreciação cambial, que abordarei nesta coluna em outra oportunidade.

Tal cenário se reflete na projeção de alta na gasolina no segundo semestre, média de 1,3% ao mês. No primeiro semestre, a commodity no IPCA deverá variar quase -15%, com reversão parcial desta queda no fechamento do ano de +8%. Deste modo, em 2020, frente a 2019 o preço deverá cair -7,7%.

Esse subitem ajuda a compor a projeção para o IPCA de 2020 em 1,8%.

Lembre-se sempre de que o time de especialistas da Ativa Investimentos pode ajudar você a entender melhor os desdobramentos da economia doméstica e internacional. Até a próxima terça-feira!

Étore Sanchez
Economista-chefe da Ativa Investimentos

Deixe seu comentário

Instagram has returned invalid data.