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Entenda a relação entre Ibovespa, os resultados das empresas e a China

O Ibovespa voltou a flertar com pontuação acima dos 80.000 pontos. Mesmo com todos os desafios impostos pela atual crise do coronavírus, esse alcance dialoga com os primeiros balanços corporativos, que foram recebidos com relativo otimismo perante o mercado.

Mas como? E aquela profusão de notícias negativas que abalaram o mercado em março? Como o resultado operacional das empresas continua mostrando resiliência?

Na coluna de hoje do Palavra do Especialista, avaliaremos os dados referentes a Santander e Vale e, através deles, daremos um panorama acerca da relação da temporada de balanços com o coronavírus.

O setor bancário é fundamental para o entendimento da evolução do Ibovespa. Responsável por aproximadamente 1/5 de sua composição, uma dinâmica negativa neste pode condenar o principal índice acionário brasileiro.

Nos bancos, o mercado esperava, com os adventos do coronavírus, uma piora tanto em aspectos da demanda como da oferta. Do lado da oferta, a iminente queda na renda média da população e a piora em outros índices macroeconômicos, como o desemprego, podem afetar a inadimplência de pessoas e empresas.

As incertezas no mercado de trabalho, assim como a diminuição do ímpeto de consumo, devem diminuir a demanda de crédito, tal como em março, onde a mesma apresentou queda mensal de 14,25 % frente a fevereiro.


Fonte: BoaVista SCPC

O que indica o resultado do Santander?

Apesar de todo esse cenário, observamos em Santander uma expansão da carteira de crédito ampliada, evolução no ROE (retorno sobre o patrimônio líquido, importante métrica de avaliação de desempenho do setor) e queda marginal na inadimplência.

Por mais que o banco tenha preferido provisionar valores menores, o que é um tanto arriscado, dado sua carteira possuir alta exposição ao crédito pessoal destinado diretamente às pessoas físicas e ao fato do lockdown ter se iniciado, de fato, no terço final do trimestre, o resultado operacional veio acima das expectativas e é um bom prognóstico para os balanços do setor que estão por vir.

E a Vale? O que podemos esperar da companhia?

Em Vale, verificamos uma forte queda nas vendas e na produção. A resiliência do minério, que dentre as commodities, é a que menos sofre os impactos da atual pandemia, juntamente às menores provisões, foram preponderantes para conceber uma bottom line positiva para a empresa.

No resultado, notamos que a contribuição da China no mix de receitas caiu drasticamente, prejudicando os números atuais, mas dando a evidência que, diante de sua recuperação, é possível que este tenha sido o trimestre mais tímido da companhia no ano.

Tal como em Santander, os efeitos acabaram sendo sentidos em março. Em Vale, especificamente, os últimos dez dias do mês foram os mais complicados mas companhia afere que a produção de aço bruto na China no 1T20 ficara acima em 1,2% da mesma no 1T19.

Ademais, o país voltou às compras em março e apoiou a produção e a demanda por aço bruto, uma vez que as operações dos principais players industrias do país estão se normalizando. Os estoques chineses de minério de ferro também estão em processo de normalização. Na visualização semanal, percebemos uma notória queda nos níveis atuais frente ao topo local atingido em fevereiro de 2020.

Ou seja, para a Vale o pior já passou, uma vez que os impactos do coronavírus não se mostraram e a sua dependência da China pode ser benéfica, caso o país asiático confirme sua rápida recuperação. Em relação ao Santander não se pode dizer o mesmo, já que o impacto da pandemia não se mostrou no primeiro trimestre, mas pode aparecer no segundo.

China mostra sinais de recuperação

Enquanto o mundo discute a forma como se dará a recuperação das economias globais – se em U, W, V ou até mesmo em L – a China dá mostras de ser o país mais avançado no processo e assim, verifica-se uma crescente expectativa que empresas que dependem mais da China em seu mix de receitas possam apresentar desse status e do retorno da demanda do país chinês para apresentar resultados melhores a partir do segundo trimestre, quando os impactos do coronavírus começarão a ser sentidos de forma mais flagrante nas economias globais e sobretudo nas emergentes, como a nossa.

Apesar da expectativa, é preciso analisar caso a caso as empresas antes de decidir investir em uma delas. Mesmo companhias amplamente ancoradas na economia chinesa podem sentir de forma forte os impactos do coronavírus, como no setor de celulose, onde apesar de as vendas estarem mostrando resiliência, a dinâmica de dívida das empresas do setor pode majorar o impacto financeiro e deteriorar as condicionantes de liquidez e solvência destas durante os próximos meses.

Mas isso é assunto para o próximo Palavra do Especialista. Até lá!

Ilan Arbetman
Analista do Research da Ativa Investimentos
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