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Como o avanço do e-commerce afeta a logística das empresas?

Com a quarentena, as vendas online dispararam no Brasil. Esse intenso avanço do e-commerce e de outras tecnologias ligadas ao consumo está fazendo com que as redes de distribuição do varejo revejam sua logística para conseguir entregar o produto adquirido pelo consumidor de maneira rápida e prática.

Para conseguir cumprir cronogramas cada vez mais restritivos, as varejistas estão sendo obrigadas a pensar fora da caixa e a reavaliar todo o modelo de operação dos seus armazéns. É sobre isso que vamos falar na coluna de hoje do Palavra do Especialista. Vamos procurar entender melhor essas transformações, seus gatilhos, o cenário em que ocorrem e as perspectivas futuras.

O setor

A habilidade de promover aos consumidores uma maneira fácil e rápida de receber seus produtos se tornou um grande ponto de disrupção para o varejo. Com varejistas online oferecendo produtos com preços competitivos, pressionando as margens do setor, muitos vêm explorando formas de se diferenciar dos concorrentes através da habilidade de enviar produtos mais rapidamente e de diversas formas. É nesse contexto que surge o omnichannel, onde a conveniência, leia-se customer service, vem sendo a principal arma.

Tais transformações vêm trazendo uma enorme pressão nas redes de distribuição e de armazenamento. O grande desafio é migrar de um modelo de distribuição tradicional para um multifacetado, que envolve lojas física, centros de distribuição, pontos click-and-collect, entre outros.

Dito isso, observamos uma acelerada e irrefreável remodelagem da operação logística, prezando cada vez mais pela agilidade, localização e eficiência de custos.

Para os pequenos varejistas online, a dificuldade é ainda maior, pois eles não contam com uma rede de lojas físicas bem estabelecidas que possibilitem o click-and-collect, bem como o poder de branding advindo delas.

Por outro lado, gigantes do comércio eletrônico, com destaque para a Amazon, tornaram-se referência no setor, ditando com maestria o ritmo da indústria, ampliando o significado de serviço ao consumidor e puxando as concorrentes para novos patamares de disrupção logística.

Localização, localização e localização 

Uma das principais questões a serem levantadas é a localização de tais centros de distribuição e armazenamento neste novo cenário. Com a conveniência se tornando um dos principais pontos de competição entre os varejistas online na conquista por market share, a pressão por entregas rápidas torna a maior proximidade dos galpões logísticos com centros urbanos um ponto-chave.

Isso pode significar um maior número de hubs regionais e pequenos centros logísticos urbanos. Com o potencial de reduzir prazos de entrega, é parte integral do processo last mile (pode ser definido como a última etapa do supply chain, o movimento do produto do depósito ao cliente), pequenos entrepostos urbanos desempenharão participação relevante por market share online.

Por outro lado, galpões urbanos requerem maior planejamento e um design mais trabalhado. Ademais, uma vez inseridos em ambientes de maior densidade, sofrerão algumas restrições, como da capacidade das vias urbanas em horários de pico.

Tal remodelação na localização da infraestrutura logística vai proporcionar ganhos de eficiência para muitos varejistas. O desejo de evitar concentrar a operação, em face de possíveis falhas no supply chain, deve limitar o potencial de locatários nos chamados “mega galpões”.

Não enxergamos, contudo, um menor protagonismo dos centros de distribuição regionais. Estes, diferentes dos pequenos e locais, não se encontram em regiões urbanas e de maior densidade, por isso, tendem a ser maiores e a acomodar mais volumes.

Apesar do crescente interesse por galpões urbanos, a demanda por depósitos regionais maiores deve continuar, uma vez que os varejistas buscam aumentar sua cobertura/alcance, bem como fortalecer a rede já existente.

E-commerce e logística 

O e-commerce segue crescendo a passos largos e, junto com ele, a demanda por espaços logísticos maiores e mais modernos. Segundo dados do eMarketer, o comércio digital já representa mais 4,2% das vendas do varejo na América Latina, número ainda tímido se comparado com a América do Norte e Europa.

Contudo, seu crescimento segue double-digit: 21,3% em 2019, levemente acima da média mundial (+20,7%). A tendência natural é uma desaceleração deste crescimento.

Apesar da deterioração macroeconômica dos países latino-americanos, advinda dos desdobramentos do covid-19, esperamos um crescimento do e-commerce acima do previamente estimado para 2020, em razão do fechamento temporário das lojas físicas.

Podemos destacar dois principais drivers para este crescimento: penetração da internet (usuários/população) e compradores online (como % de usuários de internet).

Em ambos os critérios, o Brasil está atrás de seus pares latino-americanos. Este gap  em relação a países desenvolvidos, como Reino Unido e Alemanha, é ainda maior e explica, em parte, a nossa baixa penetração do e-commerce perante os pares internacionais.

Contudo, entendemos que tais números enaltecem o enorme potencial de crescimento deste mercado no país, uma vez que tratamos do maior mercado varejista da América Latina (34%), da 9ª maior economia do mundo e de uma população de 209 milhões de habitantes.

O impacto deste crescimento nas cadeias logísticas é profundo. Diante da complexidade do comércio digital, que possibilita exponencial aumento do sortimento de produtos, entregas mais ágeis e políticas de retorno flexíveis, observamos uma pressão no supply chain.

Tal pressão da operação digital demanda, por sua vez, soluções modernas, através da implementação de novas tecnologias de picking e Big Data, bem como mais espaço logístico.

Pesquisas recentes da CBRE Group e Prologis indicam que varejistas online demandam, aproximadamente, 1,2 milhão de metros quadrados em espaço de distribuição por bilhão de dólares em vendas online, valor três vezes maior do que o demandado por varejistas tradicionais – também chamados brick-and-mortar – para o mesmo nível de receita.

Esses dados mostram que o e-commerce é uma atividade muito mais intensiva em logística. Não demandam somente mais metragem, como também altura, principalmente quando próximos dos centros urbanos. Além disso, a dinâmica do e-commerce necessita de maior eficiência logística, diante do maior giro de mercadorias, prazos curtos e variedade de produtos.

Podemos destacar diversos motivos para esta maior necessidade de espaço logístico, contudo, daremos ênfase para seus principais vetores. Primeiramente, a grande variedade de produtos, dado o alto grau de personalização de mercadorias, é fator-chave deste processo. Sortimentos maiores que os encontrados em lojas físicas e a necessidade de picking individual dos produtos adicionam sensível grau de complexidade ao supply chain, exigindo mais espaço físico, como também novas tecnologias e colaboradores.

Vendedores online, diferente dos lojistas físicos, não sofrem limitação no número de clientes simultâneos. Ao mesmo tempo, a internet nunca dorme, nem o comércio digital. Dessa forma, a demanda sazonal pode ser ainda mais acentuada, gerando pressão na capacidade logística e potencialmente afetando prazos de entrega, consequentemente, a reputação do varejista. Dito isso, varejistas online tendem a valorizar ainda mais a flexibilidade do espaço logístico.

A logística reversa, leia-se o processo de devolução de itens, vem se tornando uma prática cada vez mais comum e fundamental na promoção de conveniência para os clientes online.

Clientes valorizam a devolução rápida de fácil de produtos. Tal processo não gera apenas maior necessidade por espaço físico, dado o maior volume de mercadorias transitando, como também por mão-de-obra para lidar com essa nova etapa do ciclo logístico. O maior número de colaboradores, por sua vez, requer um redesign das plantas, incluindo estacionamentos, banheiros, salas de descanso, etc…

Atualmente, os novos galpões logísticos esperam acomodar uma variedade de métodos de transporte, fato que também reflete em seu design. Em particular, o crescimento do e-commerce e de pedidos pequenos e fragmentados levou a um aumento no número de pequenas vans, carros e motocicletas no processo de entregas.

Podemos dizer que essa tendência está diretamente ligada aos prazos de entrega mais enxutos. Dito isso, os novos empreendimentos devem pensar em como acomodar tal variedade de veículos, que precisam ser eficientemente carregados e descarregados, exigindo mudanças no layout e espaço.

Em suma, entendemos que, por andarem de mãos dadas, o setor de logística deve ser positivamente impactado pela acelerada transformação do varejo, impulsionado pelo e-commerce.

Por Daniel Ribeiro, da equipe de Research da Ativa Investimentos

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