Os desafios de 2022: o que esperar para o setor econômico do país

Sem rodeios, o ano deverá ser espinhoso e marcado pelas incertezas eleitorais. Com o que está posto até agora, ainda é difícil projetar que as eleições presidenciais deste ano fugirão muito das posições antagônicas entre Bolsonaro e Lula.

Mais relevante do que a agenda dos costumes, avaliamos que as diferenças entre as posições econômicas deverão trazer grande volatilidade para os mercados.

Evidentemente que tal perspectiva se dá mediante a confirmação ideológica de seus candidatos. Fato é que, Bolsonaro, no final de mandato, adotou medidas desenvolvimentistas, enquanto Lula, em alguns instantes de seu governo, teve medidas liberais. Por isso há quem diga que o segundo governo de Bolsonaro não seria tão adepto do liberalismo, bem como um governo Lula seria mais pragmático mediante as limitações fiscais. Contudo, essas são suposições bastante fortes e que podem facilmente serem desmanteladas ao longo do próximo governo.

De concreto, temos a incerteza no tocante ao próximo governo. Por enquanto as pesquisas de intenção de voto refletem mais uma avaliação sobre o atual governo, visto que as bases eleitorais não foram minimamente ativadas e nem mesmo a cesta de candidatos está definida. Mesmo assim, vemos que os dois candidatos supracitados aparentam descolar dos demais e serem os mais fortes para um (provável) segundo turno, com ligeira vantagem para o candidato petista.

Assim, a incerteza supracitada mitiga intenções de investimento, uma vez que a definição sobre o próximo governo influencia muito a alocação mais eficiente dos recursos.

Como é de se esperar, o crescimento deverá refletir essa incerteza. Contudo, para além disso, vínhamos alertando que o crédito cobraria sua fatura ainda em 2021, (os últimos dados de atividade confirmaram nossa perspectiva), e, principalmente 2022, deverá sofrer com as eventuais restrições.

Nossa teoria, inúmeras vezes pontuada em 2021, é que o crédito que sustentou a queda menor de 2020 e permitiu uma recuperação em 2021, mas a antecipação do consumo “roubou” crescimento futuro. A lógica relativamente simples: à medida que não se consegue rolar a dívida, deve-se abrir mão de consumo corrente para honrar créditos tomados anteriormente.

Com o endividamento da economia elevado (famílias, empresas e governo) e o processo de restrição de política monetária, puxado pelos juros mais elevados, a possibilidade de rolagem fica mais seletiva e cara, fazendo com que a fatura chegue no ano corrente.

Deste modo, projetamos que o Brasil deverá ter crescimento do PIB de apenas 0,3% em 2022.

Conforme dito, o PIB cresce pouco por restrição da política monetária. Diferentemente de outras localidades no mundo, a relação entre atividade e inflação, pela ótica da política monetária brasileira, é de subordinação. Logo, o juro sobe para derrubar a atividade e consequentemente segurar as perspectivas inflacionárias.

Diga-se de passagem, mesmo com o processo de restrição do juro a perspectiva para o IPCA segue muito acima da meta da autoridade para 2022. Estimamos que, em função da inércia inflacionária, o IPCA deverá ficar ao redor de 4,9% ao longo deste ano.

A Selic, em função disso, deverá subir até 12,25%, com duas altas de 150bps nas duas primeiras reuniões desse ano, com interrupção abrupta do ciclo em março mediante os receios de promover uma perda da meta para baixo em 2023. Esse patamar de juro deverá permanecer ao longo de todo 2022, com afrouxamento apenas em 2023.

Para finalizar, o câmbio deverá fechar o ano ao redor de R$5,40/US$, mas isso não quer dizer que a variável terá comportamento estável. Através do câmbio deveremos observar a volatilidade trazida pelo ano eleitoral e suas antagônicas possibilidades econômicas.

Deste modo, descrevemos nossa perspectiva para o desafiador 2022, que, sem contemplar maiores, outros, solavancos, no tocante a novos choques e crises pandêmicas, já deverá, por si só, ter grandes barreiras a romper.

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