Como fica a Petrobras diante da crise do petróleo?

Esta semana, o mundo se estarreceu com as cotações negativas obtidas pelo WTI, o barril de referência norte-americano. Conhecido durante anos como ouro negro, o petróleo esboça um dos capítulos atuais mais assimétricos e cujos desdobramentos ainda soam como incógnita para o mercado.

O episódio não só assustou os investidores brasileiros como também trouxe à tona quais seriam as implicações imediatas do mesmo para a Petrobras. Na coluna “Palavra do Especialista” de hoje, teceremos as consequências mais diretas desse atual momento para a empresa.

A realidade que se abate atualmente sobre a companhia é bem diferente daquela que a mesma planejou, ainda em novembro de 2019, quando lançou seu plano quinquenal para os anos de 20-24. O Brent (U$D/bbl) médio no quarto trimestre foi de U$D 63,25, valor mais de três vezes maior do que a faixa de U$D 20 em que a commodity se encontra. Nenhuma empresa petrolífera global, com operação abrangente e multisetorial, conseguiria se adaptar a uma mudança tão brusca.

Desta forma, a companhia vem fazendo o que dela se espera: reforçando seus laços de governança, condensando despesas e concentrando esforços onde ela consegue gerar mais valor agregado, como no pré-sal, que já representa 59% da produção de petróleo da companhia, de acordo com o último balancete. Não somente, a companhia anunciou o adiamento no pagamento de proventos, uma substancial redução de produção e a hibernação da operação de ativos non-core, como campos rasos e maduros.

Mas e o movimento de queda de preços do petróleo ? Ele pode prejudicar ainda mais os planos da companhia ?

Primeiramente, vamos caracterizar o movimento recente. O mesmo é decorrente de um desajuste no lado da demanda.

Após a Opep promover um corte na produção, mesmo que muitos o tenham considerado insuficiente, uma parte do problema  de oferta foi resolvido: a assimetria acerca das expectativas quanto ao nível de produção global foi dirimido, e o movimento foi benéfico para a indústria global de petróleo. Todavia, a outra ponta do arcabouço deste mercado, a demanda, continua apresentando questões que o mercado ainda não sabe quando terá a resposta.

O alastramento de casos do coronavírus, as restrições de locomoção causadas pela pandemia e a interrupção súbita do hábito de consumo de milhões de pessoas causou um hiato entre o demandado e o produzido, que de tão hollywoodiano fez o WTI obter cotação negativa.

Mas e o Brent ? É possível tal dinâmica acontecer ?

A resposta é sim. As dinâmicas entre o WTi e o Brent possuem suas diferenças e as rotas de escape da produção do petróleo do tipo Brent mitigam, ao menos, a dependência que o WTI tem do consumo interno de um país (EUA).

Todavia, repiques de casos em economias desenvolvidas como no Japão e em Cingapura, a continuidade do lockdown na Índia e o lag na retomada dos antigos hábitos de consumo por parte do globo podem sim continuar pressionando os preços globais de petróleo.

O fato dos EUA, importante ator e mediador global deste mercado, ter sido atingido, também tira potência e poder de barganha de um dos grandes agentes que agiam em prol da contenção da queda de preços internacionais da commodity. Lembremos que mesmo antes de Rússia e Arábia Saudita se entenderem, Trump se comprometeu a comprar todo o excedente que conseguisse, e tal posição fica extremamente comprometida com os inventários centrais de Oklahoma abarrotados.

A queda abrupta dos preços também envolve a forte queda evidenciada no mês de março e o movimento de agentes de mercado estocando o produto na espera que, no futuro, o mesmo convirja, ao menos, para o nível de breakeven global, que se encontra próximo aos U$D 40. Tal movimento, comumente chamado pelo mercado de contango, também é observável nesta queda de abril, acentua este tipo de comportamento e pode fazer com que a retomada dos preços seja ainda mais demorada.

Mas e a Petrobras ?

Como dito acima, dado que nenhuma empresa consegue adaptar seu portfólio a uma mudança tão brusca, a companhia vai tocar, enquanto perdurar as condições atuais, uma espécie de estratégia de subsistência. O fato de 70% de suas receitas líquidas ser proveniente do mercado interno a blinda do caos do WTI, mas não melhora a sua situação em termos de demanda, dado o atual engessamento da economia brasileira.

Com o frenar momentâneo da política de desinvestimentos, a otimização da operação vai continuar sendo seu carro-chefe. Em resumo: além de cortar os investimentos, a estatal vai continuar tendo que preconizar o corte de custos e de despesas, algo que vem fazendo bem ao longo dos últimos anos.

O foco no upstream, sobretudo em exploração e produção, aumenta a volatilidade dos papéis da empresa no curto prazo. Porém, a companhia que sentiu o forte golpe de queda do Brent de U$D 100 para U$D 50 na primeira metade desta década é completamente diferente da que está tentando mostrar a resiliência necessária neste período de Brent abaixo de U$D 30. E aliando melhora na governança corporativa com a superação gradual dos efeitos de coronavírus, a Petrobras pode sair da atual situação até mesmo fortalecida.

Ilan Arbetman
Analista do Research da Ativa Investimentos

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